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Todo mundo diz que não se pode passar por Minas Gerais sem provar o melhor da comida local, certo? Sua apetitosa gastronomia tem fãs pelo mundo todo. Quem aí resiste ao um pão de queijo quentinho com um café coado na hora???

Mas não é só isso: comidas típicas como o feijão-tropeiro, costelinha, lombo com tutu e frango ao molho pardo? Em Belo Horizonte encontramos ótimos restaurantes com o melhor da culinária local, e também, com a boa mesa internacional. Italianos, franceses, portugueses e até iranianos

Mas um desses restaurantes tem destaque para nós do Viajar mais aos 50, é o Restaurante da Dona Lucinha.

Restaurante Dona Lucinha
Restaurante Dona Lucinha

RESTAURANTE É PROJETO DE VIDA

Dona Lucinha nasceu em fazenda e com 20 anos foi estudar na cidade de Serro, sua terra natal, no interior de Minas Gerais. Quando ela se casou com um fazendeiro voltou para fazenda. Formada como professora foi lecionar em escola rural.

Fotografia da Foto da Dona Lucinha

A coisa mais bonita da carreira dela, aconteceu a 70 anos atrás, no nordeste de minas, região do Jequitinhonha, este momento com certeza batizou a relação dela com a cozinha. Ela observava que as crianças, todas filhas e filhos de agricultores, vinham para escola descalços, mal vestidos e nessa época não era distribuída a merenda escolar.

Ela observada que as crianças traziam seus lanches que era o que eles tinham em suas roças, mandioca, batata doce, cará, banana da terra. Alimentos muito simples mesmo. Hoje são todos ingredientes gastronômicos, mas a 70 anos… era comida de gente simples e com poucas posses financeiras.

O pouco que eles tinham vinha de casa enrolado na folha de bananeira, numa folha de couve e eles deixavam no mato, em um cantinho bem escondido, sabendo que depois eles iriam precisar comer alguma coisa, porque não era servida a merenda escolar.

O termo criado por Dona Lucinha para este tipo de merenda foi: Merenda escondida!!! Uma expressão bonita.

Ela observou que aquelas crianças tinham vergonha daquilo que é tão nosso, do nosso patrimônio cultural. Essa expressão é uma marca na história da Dona Lucinha. Nessa época ela convidou os pais das crianças para uma reunião.

Imaginem na década de 50/60 uma reunião escolar. Mas Dona Lucinha os convidou e explicou que a distância percorrida pelas crianças era longa e pediu a eles que a ajudassem com a merenda, porque com fome ninguém aprende. Ela precisava da ajuda dos pais, pois a merenda ela mesma faria, junto com as crianças.

A resposta deles foi, em bom mineirês:

– Uai Dona Lucinha, a senhora ficou doida, nós é pobre, quem pode fazer merenda pra eles é a senhora.

Aí ela falou assim:

– Se eu pedir amanhã um pedaço de mandioca para cada um de vocês, isso vocês têm?

– Ah, claro que isso nós tem.

– E cará, no dia seguinte?

 – Ah, nós tem.

– Fubá?

– Tem.

Aí, a partir daí ela pedia aos alunos que trouxessem no dia seguinte um alimento, como por exemplo, mandioca. Ela fazia melado de rapadura e cozinhava com eles a mandioca e comiam juntos. No dia seguinte, outro alimento. Ela começou a fazer merendas coletivas com eles. E assim eles deixaram a vergonha de lado e passaram a se alimentar com os alimentos que saem da horta, da roça daquilo que é nosso.

Então tudo mudou a partir daí ela começou toda sua história com a cozinha, ela se transformou no que ela é hoje. Ela ganhou o mundo fazendo isso, comida mineira. Foram diversos festivais, e assim foi crescendo, sendo vista.

Doma da Dona Lucinha

Era muito determinada e uma empreendedora por natureza. Um dos festivais aconteceu em Brasília, no Clube do Congresso, cuja proposta foi feita por Dona Lucinha para a realização de um grande evento gastronômico com o título: Para unir Minas ao molho pardo.

Depois de mais de 20 anos viajando pelo Brasil fazendo festivais ela resolveu abrir uma casa que esta, há 29 anos, na Rua Padre Odorico, número 38, Savassi – BH/MG.

Restaurante Dona Lucinha - porta de entrada

Hoje à frente da Matriz do Restaurante Dona Lucinha encontra-se a filha Márcia, que à época da abertura do restaurante era professora de história. E recebeu da mãe o seguinte convite: “Você venha, mas não pense que é fácil ganhar dinheiro com restaurante”. E uma tarefa, a de organizar uma homenagem para Oswaldo França Júnior. Escritor premiado no Brasil, autor de Jorge, um brasileiro, também nascido no Serro.

MELHOR COZINHA MINEIRA

Sempre que se encontravam nos eventos Oswaldo falava com Dona Lucinha que no dia que ela abrisse uma casa ele gostaria de ter uma mesa para ser o meu cantinho. Dizia ainda que mesmo não estando sempre por lá, seus amigos escritores se sentariam juntos nesse cantinho.

O restaurante foi aberto em 1990, mas em 1989 França Júnior faleceu em um acidente de carro. E a homenagem aconteceu somente tardiamente, para não haver indelicadeza, como disse Dona Lucinha. 

E essa foi, então, a primeira tarefa da Márcia, convidar escritores para escreverem mensagens. Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles estão entre eles. Cada um mandou uma mensagem manuscrita e se fez uma noite em homenagem a Oswaldo França Junior.

Restaurante Dona Lucinha - Café coado

COMIDA MINEIRA TEM TERROIR?

Dona Lucinha sempre associou comida a cultura. Para abrir o restaurante os pratos que seriam servidos foram estudados em conjunto com uma historiadora local que escrevia sobre o conceito da cozinha mineira. Foram escolhidos os pratos mais representativos do período de formação da cozinha típica mineira.

Você sabia que a cozinha mineira tem terroir? Para Dona Lucinha tem sim, ela dizia que estava levando para o restaurante a cozinha do Serro, da sua terra, os modos de fazer. E se você ficou se perguntando o que é terroir? “Terroir é uma palavra francesa sem tradução em nenhum outro idioma. Significa a relação mais íntima entre o solo e o micro-clima particular, que concebe o nascimento de um tipo de uva, que expressa livremente sua qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho, sem que ninguém consiga explicar o porquê.”

Alguma dúvida de que a cozinha mineira tem terroir????

HISTÓRIA DA ARTE DA COZINHA MINEIRA

E ela também concluiu que a cozinha mineira não é uma só, que ela não pode ser oferecida em apenas uma cozinha. Para Dona Lucinha a cozinha mineira, levando em consideração o ciclo do ouro, é a cozinha do tropeiro e também é a cozinha da fazenda.

A cozinha da fazenda tem quintal, tem horta, tem chiqueiro, tem terreiro. E a cozinha tropeira é ambulante, por isso o que se come na vila, na fazenda, não é o que se come na tropa. Esse é o motivo dos dois nichos que você encontra no restaurante um cozinha da fazenda e o outro cozinha do tropeiro.

Hoje foram feitas melhorias nos dois locais, mas o conceito pesquisado permanece.

Dona Lucinha tinha UMA associação grandiosa com a cultura e era muito procurada por pesquisadores e jornalistas interessados em gastronomia para conversarem sobre suas opiniões acerca de assuntos gastronômicos.

Ela gostava de escrever sobre tudo sobre a história do milho ela escreveu em forma de poema, manifestando suas emoções. Havia nela um interesse em fazer um livro de cozinha, e Márcia achava que era um livro dedicado a receitas. Um dia Márcia encontra, como ela diz, a mamãe desenhando todos os fogões que ela explicava o seguinte: a receita típica não pode existir sem as condições técnicas. Como que vai ter pão de queijo se não tem forno…

E assim foi sendo estruturado o livro: “História da arte da cozinha mineira” que está na quarta edição. O livro foi traduzido para o inglês e rendeu um carnaval.

“Do fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí...”

Esse livro deu os fundamentos necessários para os carnavalescos da Salgueiro, do Rio de janeiro, em 2015, construírem um carnaval tendo a Dona Lucinha como tema. Ela desfilou como homenageada e a escola ficou em segundo lugar.

Um capítulo desse livro fala sobre os fogões, Dona Lucinha conhecia todos esses nomes e suas utilidades. Fogo de chão, fogo de barranco, fogão de três pedras, forno de cupim, fogão de jirau onde a lenha fica embaixo, fogão de barranco, porque era cavado no barranco, porque as casas não eram adequadas para se ter fogões dentro delas, a trempe do tropeiro, as fornalhas.

MELHOR COZINHA MINEIRA

COM BRILHO NOS OLHOS

Quando Dona Lucinha morreu, Márcia assumiu a matriz do Restaurante Dona Lucinha e sua primeira sensação foi a não se sentir preparada, considerando a grandeza do trabalho e de tudo o que ela fez.

Com brilho nos olhos Márcia Restaurante Dona Lucinha

A frente deste negócio a Márcia tem 23 anos. E,  já desenvolveu e aperfeiçoou várias receitas da casa.

– “Eu peguei a coisa muito sutilmente, acho que foi assim.”

TURISTA É A AVIDO POR CULTURA...

Painel - Restaurante Dona Lucinha

Dona Lucinha abriu duas casas em São Paulo, a primeira é Moema que ainda está lá e outra nos Jardins. Nessa casa ela encomendou uma história da comida mineira pintada, para que os turistas que passassem por lá aprendessem um pouco mais sobre a comida mineira.

Márcia, junto com Peti, seu amigo argentino que morava no serro, pincelaram juntos quais seriam as principais cenas para fazer um caminho que contasse a história da cozinha mineira, onde tudo começou, por onde passou, sua evolução. Esse painel ficava na parede, só que essa casa fechou e ele ficou guardado. Márcia então decidiu colocá-lo no teto da matriz do Restaurante Dona Lucinha.

A região habitada por botocudos, com onça pintada que é da fauna, o artesanato indígena, a chegada do bandeirante, a descoberta do ouro e do diamante. O distrito de Diamantina que está na região do Serro, a chegada no negro. A religiosidade popular, igrejas, festas religiosas, igrejas barrocas, o ciclo do ouro vai terminando e Minas vai se ruralizando, aí entra o moinho, a cana, o queijo, a cachaça, o turismo, a fazenda.

Painel - Restaurante Dona Lucinha
MELHOR COZINHA MINEIRA

Endereço: Rua Padre Odorico, número 38, Savassi – BH/MG.

Instagram  @donalucinhabh

Facebook @donalucinhabh

*Gostaríamos de agradecer ao Restaurante Dona Lucinha – Matriz pelas cortesias no almoço, que recebemos.

Ressaltamos que todas as opiniões, recomendações e sugestões aqui apresentadas são baseadas em nossas experiências.

RESTAURANTE DONA LUCINHA


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